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DISCURSO DE ACEITAÇÃO DO PRÉMIO SECIL 2012

Teatro Nacional D. Maria II, 09 de Dezembro de 2013

 

Fez há poucos dias cinco meses que estava diante de um computador a escrever uma carta muito difícil para enviar ao dono de uma obra que não está a correr nada bem, e estava a pensar para comigo uma coisa que penso muitas vezes, e que acredito que, nos tempos que correm, muitos outros arquitectos pensarão também muitas vezes: porque não escolhi eu outra profissão?

O telefone tocou, era o Senhor Pedro Queiroz Pereira, para me dizer que eu tinha ganho o Prémio Secil deste ano.

Quando percebi finalmente, ao fim de alguns segundos, que não podia ser nenhum dos meus amigos a pregar-me uma partida, fiquei, como não podia deixar de ficar, assarapantado.

Acho que, por causa disso, nesse curto telefonema não soube agradecer e dizer da generosidade que a Secil demonstra nestes tempos, ao persistir em promover com a Ordem dos Arquitectos este Prémio tão importante para a arquitectura portuguesa. Faço-o agora. Obrigado. Não só por mim, mas por todos os arquitectos para quem, no meio de todas as adversidades, a existência do prémio Secil é um estímulo que ajuda muito a querer continuar.

Mal desliguei o telefone, e depois de ter dado algumas piruetas com as minhas filhas, Aurora e Clara, que por acaso estavam comigo nessa tarde, quis em primeiro lugar, é claro, dar a notícia às pessoas que participaram directamente neste trabalho para agradecer-lhes também.

A arquitectura é sempre um trabalho colectivo, que envolve imensa gente. E a obra da Escola Francisco de Arruda, como qualquer outra, não seria com certeza a mesma se tivesse sido feita com outras pessoas – outros colaboradores, outros clientes, outros construtores.

Liguei, em primeiro lugar, aos colegas, amigos que colaboraram no projecto e aceitaram fazer a festa em que tento transformar todos os projectos que faço:

 

Ao Rui Sousa Pinto, companheiro de muitos anos, e ao André Matos, que me acompanhou sempre firme perante as dificuldades da obra, e que continuam comigo, a aguentar o barco.

Ao João Pernão, que mais uma vez esteve constantemente connosco e me ajudou na tarefa paciente de encontrar as cores certas para a obra com a Maria Capelo, minha mulher, que tem tido que encontrar paciência para muitas mais coisas.

Liguei ao Vitor Quaresma, e a seguir, gastei uma pequena fortuna. Porque, para falar com a Ana Belo, tive que ligar para França; para falar com o Steven Evans, tive que ligar para o Brasil; com o Nuno Florêncio, também para França; soube mais tarde que o Filipe Cameira está em Inglaterra.

Todos emigrados.

Depois, ao resto da equipa:

À Catarina Assis-Pacheco e à Filipa Meneses, arquitectas paisagistas, que souberam entender o que estava em jogo e dar à vegetação que existia a forma de um jardim.

Ao Miguel Villar, engenheiro das estruturas, e a todos os restantes engenheiros e consultores, muitos, que tiveram a disponibilidade e o empenho suficientes para desligarem inúmeras vezes o taxímetro (como nós costumamos dizer), o que se vai tornando cada vez mais difícil.

Depois, liguei aos Professores Maria do Rosário Isidro e Mário Godinho, que nos explicaram sempre com toda a clareza - o que não é nada fácil - as necessidades práticas da escola. Pedi-lhes para agradecer também à Professora Emília Barreiros, que dirige a manutenção da escola (porque as obras não acabam quando a gente se vem embora), à Professora Lurdes Caria, que toma conta da biblioteca, e a todos os outros professores e funcionárias que nos apoiaram com entusiasmo desde o primeiro momento.

Liguei para o Arquitecto Tiago Queiroz que, ao acompanhar este trabalho na Parque Escolar, mostrou saber perfeitamente qual o papel profissional e cívico dos projectistas no processo complexo de uma obra. Foi ele quem me disse que quase todos os engenheiros, directores da obra do consórcio Aníbal Cristina/Martifer/Aquecilis, estão agora em África. Quero também mencioná-los hoje e agradecer especialmente aos operários que construíram esta obra.

Tentei agradecer ao Engenheiro Miguel Esteves, da Fiscalização. Sem o empenho e o rigor dele a obra não teria chegado ao fim como chegou. Soube mais tarde que também está em Angola.

 

Finalmente, aos amigos próximos.

Ao Jorge, meu irmão, aos meus pais.

 

Entretanto, à medida que a euforia foi passando, ficaram, é claro, a alegria e o orgulho. Alegria e orgulho que se devem a três razões principais, que gostava de dizer aqui:

- Em primeiro lugar, por o Prémio Secil ter sido ganho por alguns dos arquitectos de cuja obra mais gosto, e por estar, entre eles, o arquitecto Vítor Figueiredo, de quem tive a sorte de ser amigo, o prazer de termos rido tantas vezes juntos e com quem tanto aprendi. Sinto muito a falta dele aqui hoje como sinto a de outro amigo e mestre, o arquitecto Duarte Cabral de Mello, que ainda há dois anos foi presidente do júri deste prémio.

- Em segundo lugar, por ver valorizado pelo Júri um trabalho em que sobretudo se procurou salvar o que já lá existia e acrescentar serenamente novos edifícios para que com os antigos, e com a cidade, formassem uma nova unidade, uma nova situação. Ou seja, por sentir que o Júri reconheceu este princípio de que salvar uma herança não significa limitarmo-nos a ela.

- E, finalmente, alegria e orgulho por se tratar de um projecto para uma Escola Pública.

 

De todos, para todos.

Especialmente, nestes tempos estranhos.

Na última vez que lá estive, uma funcionária da escola contou-me que grande parte das pessoas que a visitam primeira vez, a maior parte delas pais e mães, perguntam se não se terão enganado, perguntam se a escola não é privada.

Tempos estranhos estes, de facto.

O que é que levará uma pessoa hoje a sentir esta dúvida perante esta escola?

É que o está ali, concretamente, é um conjunto de três edifícios, generosos e pragmáticos, projectados e construídos nos anos 50 do século XX, como escola industrial, que estavam envelhecidos e degradados, caíam partes, entrava chuva – precisavam de obras. Foram por isso agora simplesmente reabilitados para ficarem muito parecidos com o que tinham sido antes, e juntaram-se-lhes três outros novos, projectados por nós neste século XXI, mas igualmente pragmáticos e construídos com soluções, detalhes e materiais tão simples e correntes como os dos outros – uma estrutura de betão, preenchida com alvenaria de tijolo, resinas industriais, mosaico hidráulico ou marmorite no chão e às vezes nas paredes, tectos de cimento e madeira para corrigir a acústica onde foi preciso, alguns canos, luzes e cabos a que os regulamentos actuais obrigam, rebocos, estuques, tintas.

Tratou-se, simplesmente, de tentar projectar a escola decente que qualquer criança merece, independente da classe social em que lhe aconteceu nascer.

 

Luis Buñuel, o cineasta, dizia que fazia filmes para transmitir aos espectadores a certeza absoluta de que não vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Nos filmes que ele fazia, fossem passados em barracas ou em palácios; fossem os actores escolhidos por ele ou impostos pela produção; fossem os filmes pagos por condes ou por comerciantes; custassem mil pesetas ou um milhão de francos; fossem como fossem, para nos lembrar que não vivemos no melhor dos mundos, Buñuel – com os meios que são os meios próprios do seu trabalho – podia meter dentro dos seus filmes a miséria, a mentira, a corrupção, a injustiça, a usura, o desamor.

Nós, arquitectos, não podemos fazer isso. Ainda para mais, como todos sabemos e outro Luís, o arquitecto Louis Khan, explicou bem, um artista, para expressar o absurdo da guerra pode pintar um canhão com rodas quadradas. Nós, arquitectos, podemos recusar desenhar rodas de canhões, mas se desenharmos rodas, teremos que as fazer redondas.

Enquanto arquitecto, tudo o que posso fazer – sempre que me for dada a oportunidade de fazer um projecto e sejam quais forem as circunstâncias, o sítio, o programa, a dimensão, ou o orçamento – é pôr um pouco de afecto e de alegria no meu trabalho e fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tentar oferecer um vislumbre do que o mundo poderá ser se for um bocadinho melhor.

Obrigado.

 

José Neves