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ARQUITECTURA: VERTICAL, HORIZONTAL, FECHADO, ABERTO

Quando, há algum tempo atrás, a Penelope Curtis me desafiou para participar na apresentação do seu novo livro, lembro-me de me ter sentido lisonjeado e, ao mesmo tempo, muito aflito por não saber se teria alguma coisa para dizer sobre um livro que eu pensei que seria certamente sobre escultura. Quando ela me disse o título – Vertical, Horizontal, Fechado, Aberto – eu disse-lhe: “Mas afinal é um livro sobre arquitectura!” E ela respondeu-me: “Exactamente!” Passado um mês ou dois, quando pude ler e ver o livro, percebi que não me tinha enganado.

 

Ora, como se trata de uma apresentação de um livro, creio que, antes de mais e como é costume, devo ler um pequeno excerto. Escolhi um pequeno excerto do Prefácio, que traduzi livremente. Portanto, peço desde já desculpa à autora e às pessoas que estão presentes se alguma coisa não estiver muito bem nesta tradução.

 

Este livro é sobre quatro qualidades chave da arquitectura e, sobre como é que essas qualidades, em conjunto, constroem espaços mais amplos que nós conhecemos e experimentamos. Cada um dos primeiros capítulos identifica uma qualidade – a vertical, a horizontal, a fechada e a aberta – como sendo centrais para a arquitectura e explora-as através de uma série de exemplos.

[…]

O quinto e último capítulo sugerem que quando as quatro qualidades trabalham juntas, temos então as espécies de conjunto [de um todo organizado] que ficaram associadas intimamente não só à experiência arquitectónica, mas também às qualidades especiais do espaço cerimonial ou comemorativo. Este capítulo sugere mais especificamente que quando entramos nesta espécie de espaço – quando ultrapassamos a soleira [é esta uma das palavras mais usadas no livro] – entramos dentro da arquitectura. A soleira então, é ao mesmo tempo conceptual e física, e eu quero ligar - tecer - esses momentos em que um parece anunciar o outro.

Em muitos aspectos, a soleira é o convite para apreender esse momento de transição, esse momento de “tornar-se arquitectura”. A argumentação do livro invoca frequentemente a posição física do espectador [do utente]: a relação entre estar em pé (ou a caminhar) e olhar, entre os pés e os olhos, o chão e a parede.

[…]

 

 

Este livro está organizado como uma sequência – uma avalanche – de lições. E as lições só prestam para alguma coisa se aprendermos alguma coisa com elas, é claro. E neste caso, aprende-se muito. Mas prestam sobretudo para alguma coisa, se, ao mesmo tempo, nos estimularem a reagir com o nosso próprio trabalho, seja ele qual for.  Ou seja, se tiverem a capacidade de nos fazer pensar de maneiras que nunca tínhamos pensado antes, ou se tiverem a capacidade de confirmar coisas que já sabíamos há muito tempo, iluminando-as mais uma vez, de um modo que nunca as tínhamos visto (que é quase sempre uma e a mesma coisa).

É para mim o caso destas lições e deste livro.

 

Quando vos li agora um excerto do Prefácio, substituindo a palavra escultura pela palavra arquitectura, foi porque, na verdade, as qualidades que este livro enuncia como sendo essenciais para a escultura, são também qualidades essenciais para a arquitectura, que é o meu ofício. E não me parece que pudesse trocá-la por outra palavra qualquer. Esta troca funciona aqui com arquitectura e não funcionaria com mais nada.

 

Num mundo tão fragmentado e especializado como o de hoje, pode parecer que são qualidades demasiadamente gerais ou até banais, mas são sim qualidades fundamentais, no sentido literal da palavra, por estarem sempre presentes, na base, no corpo e no sentido da arquitectura, como estarão na escultura.

E talvez também por se tratar de lições, ao ler este livro, ocorreram-me outras lições, antigas, que já tinha esquecido – as primeiras lições em que me apercebi dessas qualidades, ou delas comecei a tomar consciência, como sendo qualidades essenciais para o trabalho que começava então a querer fazer. Devo dizer que estas lições foram recebidas na escola em que estudei - a antiga Escola Superior de Belas Artes de Lisboa - e dadas pelo mesmo professor, o arquitecto Duarte Cabral de Mello, que mais tarde foi meu patrão e, depois disso, meu amigo.

 

Um dos exercícios que ele costumava fazer com os alunos era o projecto do espaço interior de um cubo, com 9X9X9 metros, no qual não haveria gravidade. No meu ano, por qualquer razão, não fizemos esse exercício mas vi alguns o resultado dos trabalhos de colegas de outros anos. Eram muito difíceis, muito esquisitos, sem pés nem cabeça. Não era sequer um mundo de pernas para o ar.

Passados alguns anos, já arquitecto, um grupo de alunos de outra escola quis entrevistar-me, a mim e ao Francisco Freire, que tinha acabado de abrir o atelier comigo, para uma revista que estavam a fazer, e a primeira pergunta que atiraram – nunca mais ninguém me fez uma pergunta tão importante! – foi: “Qual é a lei principal que rege a arquitectura?” O que me saiu – e acho que não estava errado – foi: “A lei da gravidade!” Podia ter respondido “A tensão entre o horizontal e o vertical!”. Era a mesma coisa. E não estaria a referir-me apenas à arquitectura em si própria, à sua concepção, ao seu espaço e à sua construção. Estaria a referir-me também à razão de ser da arquitectura, que são as acções que se dão nela, às posições do nosso corpo nela, em que esta tensão oscila entre a posição erecta e a posição deitada, variando entre a quietude e o movimento dos nossos corpos, a andar, a sentar, a deitar, a levantar. Ou seja entre o movimento e a permanência, o sono e a vigília, a vida e a morte, que é sobre isso que se fazem as cidades, as ruas, as casas e os quartos.

 

Foi este arquitecto também que um dia nos perguntou: “Já leram um livro chamado Saber Ver a Arquitectura, escrito por um senhor chamado Bruno Zevi? Não se pode ser arquitecto sem se ter lido este livro!” Trata-se de um livro que é também uma sequência de lições sobre qualidades essenciais da arquitectura e que, numa delas trata precisamente de propor uma distinção, aparentemente muito simples, entre arquitectura e escultura: a arquitectura tem espaço interior, habitável, ao contrário da escultura. Ou seja, na arquitectura, essa habitabilidade passa por haver um contentor em relação ao qual existente dentro e fora, interior e exterior, público e privado, fechado e aberto, ou, para nos aproximarmos ainda mais do assunto do livro: escondido e descoberto.

Sabemos todos que esta distinção entre escultura e arquitectura se tornou depois, enfim, muito discutível, aliás como o livro da Penelope Curtis também demonstra, mas continua a ser um princípio muito válido, talvez não tanto para distinguir uma coisa e outra, mas para definir as qualidades próprias da arquitectura.

 

Outra das lições mais importantes desse outro livro é a famosa quarta dimensão que ele estabelece para a arquitectura, tornando a relação entre o espaço e o tempo uma relação indissociável do uso, da fruição e da leitura da arquitectura. Este aspecto é tão importante e tão constantemente sublinhado na abordagem que a Penelope faz aos exemplos que dá, que o livro se poderia chamar Vertical, Horizontal, Fechado, Aberto e Tempo.

 

O último capítulo do livro é dedicado, como diz o Prefácio, ao ensemble - ao todo, dando exemplos em que todas estas qualidades estão juntas.

Naturalmente, até pela dimensão das obras de arquitectura, habitualmente maiores do que as de escultura, todas estas qualidades, estão quase sempre todas juntas e organizadas, quando se trata de arquitectura. Aliás, é importante notar que, no livro, muitos dos exemplos de escultura dados para cada uma das qualidades, nos primeiros quatro capítulos, são ou integram um elemento que faz ou poderia fazer parte de uma obra arquitectónica: colunas, pórticos, pavimentos, lareiras, escadas. E muitos desses exemplos são obras feitas por arquitectos - Christopher Wren, John Nash, John Soane, Robert Adams, Owen Jones, Mackintosh, ...

 

Lembrei-me também de uma lição sobre escadas. E de, por causa dessa lição, ter talvez pensado em escadas pela primeira vez, depois de ter subido e descido milhões de escadas. (É este o nosso trabalho: pensar e trabalhar sobre as coisas que não se dá por lelas, triviais, de todos os dias.)

Para além deste elemento essencial da arquitectura ser uma das sínteses mais evidentes entre o vertical e o horizontal – é uma sucessão de planos horizontais que se sucedem, verticalmente, à escala do nosso corpo e dos nossos gestos, permitindo-nos que mudemos de cota –, apercebi-me da invenção incrível que é a escada, e aprendi sobretudo que inventar, em arquitectura, é uma coisa que acontece muito raramente.

A propósito disto, um outro velho mestre arquitecto, já fora da escola – Vítor Figueiredo – repetia muitas vezes, enquanto estávamos a trabalhar à volta do estirador: “Eu não conto, reconto”, treslendo um famoso aforismo de Montaigne. Como repetia, talvez a aldrabar também um dito que ele dizia ter ouvido a Januário Godinho: “Não há água pura da fonte.”

Parece-me que o verdadeiro assunto deste livro é esta continuidade, também muito óbvia e essencial, esta espécie de movimento das coisas que estão umas nas outras, que saltam de umas para as outras, através de todos os tempos e todos os espaços.

Esta continuidade é uma condição inescapável da arquitectura. Não só a continuidade que se estabelece entre diferentes tempos e diferentes espaços, mas também a continuidade, igualmente inescapável, entre a arquitectura e o mundo imediato, do qual ela faz parte, com o qual ela está sempre emaranhada (1). Com a escultura, ainda podemos fechá-la numa sala branca ou negra - como a do Martin Creed que está no livro -, iluminá-la assim ou assado, e separá-la do mundo, como um filme, numa sala de cinema. Com a arquitectura, nunca, e os laços que ligam ou os rasgos que separam podem ser entre coisas com um dia ou com mil anos de diferença, como o são, frequentemente, nas cidades em que vivemos.

 

Finalmente, para tentar acabar de explicar porque é que estas lições são tão estimulantes, vou ler outro pequeno excerto do livro, desta vez, sem fazer batota:

“A minha tese é que, apesar de os exemplos que dou serem específicos para mim (reflectindo lugares que conheci, trabalhos que vi [e creio que aqui devia estar também e de que gosto, o que não é assim tão frequente nos livros que tratam destas coisas], artistas com que trabalhei), estes exemplos têm uma validade suficiente para serem efectivamente trocados por outros.”

 

Para provar esta validade e tudo isto que tentei dizer, trouxe comigo três ou quatro exemplos de obras de arquitectura que conheço bem, para trocar com as obras de escultura que estão no livro, como reacção ao seu estímulo e como retribuição.

São elas:

 

José Neves

Lisboa, 3 de Outubro de 2017

(1) Numa outra lição, que é um pequeno livro do arquitecto Fernando Távora - A Organização do Espaço - às condições que ele coloca como necessárias para esta continuidade, chama-lhes, por coincidência, “colaboração vertical” e “colaboração horizontal”, tratando-se a primeira da colaboração entre os arquitectos vivos e os mortos que os antecederam, e a segunda entre os arquitectos de uma mesma época.

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