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DISCURSO DE ACEITAÇÃO DO PRÉMIO AICA 2014

Sociedade Nacional de Belas Artes, 01 de Março de 2016

Quando se soube deste prémio, uma das primeiras mensagens que recebi, de um colega e grande amigo, era uma mensagem no telemóvel que dizia: “Bem-vindo ao clube!” Respondi-lhe de imediato: "Como sabes, tal como o Groucho Marx, eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio."

Mas estava, obviamente, como o Groucho, a mentir com os dentes todos.

Todos nós sabemos que a importância maior de um prémio como este passa por fazer lembrar que a Arquitectura não pode deixar de ser sempre um exercício cívico, e que deve ser exigida por todos nós, enquanto cidadãos, como um bem essencial. E devemos todos, por isso, agradecer à AICA que, em parceria com o Ministério da Cultura e à Fundação Milenium BCP, continua a insistir nesta lembrança, continuando a atribuir estes prémios, nestes tempos difíceis.

Mas, para quem o recebe, um prémio é também, de facto, uma espécie de convite para passar a fazer parte de um clube que é formado por todos os que já o receberam e os que virão a recebê-lo.

E, neste caso, o convite para pertencer a este clube, que quero também agradecer pessoalmente, é uma alegria muito grande para mim.

Por várias razões.

1. Em primeiro lugar, porque estão nele muitos dos arquitectos e dos artistas cuja obra mais me interessa e acompanha, de muitos dos quais tenho a sorte de ser ou ter sido amigo.

2. Nesse sentido, sinto um prazer especial em receber este prémio em simultâneo com a Ana Jotta, cujo trabalho sigo há muitos anos, em que cada passo me faz ansiar pelo passo que virá a seguir, e que – muito importante – nos faz rir muitas vezes!

3. Outra das razões é tratar-se de um prémio que teve como pretexto o projecto para um cinema, ou seja, o projecto para uma casa que serve para se ver e ouvir uma das artes que mais amo.

4. Outra razão passa pela própria natureza do prémio AICA que, tomando como pretexto uma obra específica, refere-se igualmente ao conjunto de um trabalho, ao caminho que se foi percorrendo até aqui.

E isto permite-me voltar a sublinhar, hoje, que a arquitectura é sempre um trabalho colectivo.

Por um lado, porque só faz sentido quando existe uma comunidade, ou seja, quando as nossas solidões se organizam umas com as outras – os eremitas não precisam de arquitectura para nada.

Por outro lado, porque o trabalho da arquitectura nunca se faz sozinho, faz-se sempre com mais gente, com muita gente.

É por isso mesmo que só podemos ser arquitectos para estar com os outros.

E esta ocasião serve-me assim também para voltar a agradecer a todos os mestres e a todos os companheiros de caminho que encontrei desde que comecei a aprender este ofício, dos quais - para não passarmos aqui a noite inteira - quero nomear, pelo menos, os que estiveram comigo no projecto e na obra do Cinema Ideal:

Ao Rui Sousa Pinto, ao Vasco Melo, ao André Matos e ao Fernando Freire, todos eles arquitectos do melhor que pode haver.

Ao arquitecto João Pernão e à pintora Maria Capelo, minha mulher, que voltaram a ensinar-nos a forma de encontrar as cores certas para cada espaço.

A todos os engenheiros e arquitectos que fizeram os projectos das especialidades.

Ao António Cotrim e a todos os operários, sem excepção, da Contentor de Ideias que executaram a obra, amorosamente e com todo o brio.

À equipa da Midas – porque a arquitectura é feita para os utentes, mas sem clientes não há arquitectura –, e especialmente à Joana Cunha Ferreira e à Ângela Cerveira, que souberam partilhar todos os entusiasmos e todas as agruras que vêm inevitavelmente com uma obra.

E, por último, ao dono e mentor da Midas, o Pedro Borges, que soube dar à cidade e a todos nós uma das lições mais importantes que podemos receber nos dias de hoje, demonstrando que... existem alternativas.

5. É que, desde há muito tempo que tudo parece apontar para uma estranha impossibilidade de se encontrarem alternativas a uma determinada maneira de organizarmos as nossas vidas - a nossa existência e a nossa coexistência.

E, neste momento, do mesmo modo, parece tudo também apontar para que não haja outro remédio para o centro de Lisboa que não seja o de tornar-se numa espécie de parque temático monótono, mono-funcional, mono-social, em que cada porta é a porta de um resturante gourmet ou de uma cadeia fast-food, de uma loja coiso-e-tal, de um hotel, de um hostel, ou de um alojamento local, fruto da penúria dos habitantes que partiram, do empreendedorismo ou da ganância, tanto faz.

Ora, para um arquitecto é muito difícil deixar-se levar por isto.

O nosso trabalho passa, e sempre passou, precisamente por encontrar, no presente, alternativas para a forma e a organização do espaço e do mundo construído que chegou até nós, do passado.

Seja para salvar, seja para transformar.

São estas duas as palavras chave do nosso ofício, que muitas vezes querem dizer uma e a mesma coisa, e que nos obrigam a uma longa paciência, e a uma atenção permanente e crítica perante as circunstâncias. Nunca complacente. Seja a projectar catedrais ou lojas da esquina.

Outra das razões da minha alegria é, portanto, o Júri ter querido reconhecer com este prémio que há alternativas, que as lojas da esquina fazem falta, não há cidades sem lojas da esquina como talvez não possa haver arquitectura sem ateliers da esquina.

Ou seja, é o facto de este prémio se referir tanto ao projecto recente do Cinema Ideal que é, sem dúvida, uma loja da esquina, como ao conjunto dos projectos do atelier que insisto em manter, que insisto em que nele se continue a trabalhar de uma certa maneira, e que farei tudo para que continue a existir, literalmente, numa esquina de uma rua da Baixa de Lisboa.

5. Finalmente, é muito importante poder lembrar aqui, hoje, o arquitecto Diogo Seixas Lopes, que sabia tudo isto muito bem, de trás para a frente e da frente para trás.

Quando, ainda não há muito tempo, escreveu o mais belo texto sobre o Cinema Ideal, a que deu um título maravilhoso – No Bosque Sagrado –, o Diogo quis repetir nesse texto uma frase de António Gramsci, enquanto jovem, que é um dos poucos lemas que este ofício, tão ligado às circunstâncias em que se dá, nos permite ter, e que repito todos os dias: “pessimismo na inteligência, optimismo na vontade”.

Se eu conseguisse traduzir isto nas palavras de que o Diogo mais gostava, talvez pudesse dizer, em vez de pessimismo, melancolia, e em vez de optimismo, desejo, firmeza, determinação, alegria.

Ao fim e ao cabo é esta a nossa responsabilidade, quando nos pômos a pensar e a fazer qualquer coisa neste mundo.

Obrigado.

José Neves